A Vida Entre Paredes de Barro
O sertão, que alguns dizem ser castigado pela natureza, é tão dadivoso, que seu solo rico em argila emerge do chão, modela-se, faz que é ser vivo erguido e sustentado por "costelas" de talos de carnaúba. O emoldurado é um casulo de barro, uma casa, a moradia possível, que gente como Maria de Lourdes Ferreira ergueu em Limoeiro do Norte com as próprias mãos. Herança cultural desde o período colonial, as casas de taipa, ou de "pau-a-pique", são cobertor para milhares de cearenses. Mas a rusticidade, às vezes bela, foge de qualquer romantismo e reflete um sério problema social e de saúde pública, que segmenta o conceito de moradia.
O dia mal amanhece, Maria de Lourdes levanta da rede, acorda o resto da família, que o "vão" é pequeno, e para não "empatar" o trânsito dentro de casa é bom acordar cedo mesmo, que a criança tem colégio e os homens de casa têm que trabalhar, ou pelo menos tentar, já que todos estão desempregados à procura de "bicos".
As redes são recolhidas para cima da parede, que não têm mais de dois metros de altura. Não precisam de cabide armador de ferro, se a própria armação de carnaúba que emerge da parede dá sustento à ponta dessas redes, ainda que entre um balanço e outro lá de longe se ouça um rangido na parede, que até agora não caiu e "se Deus quiser nunca vai cair", diz a mulher, principalmente agora que "está pra receber" uma casa de tijolo. Pelo menos é a conversa de há oito anos, a esperança instalada em quem tem 46 anos de idade e nunca morou em casa de tijolo.
Tirando o neto Daniel Lima, que só tem 5 anos e corre descalço e pelado pelo meio da casa, os outros seis moradores tiram os pés da rede direto para as chinelas. Não só a parede, mas o chão é de barro, "e se não cuidar os pés estão pretos de sujo". Se sujar, não pode limpar logo, que a água potável é pouca na Chapada do Apodi.
O que se preserva é para beber, ainda que a água para consumo doméstico tenha sido, por diversas vezes, condenada por médicos, pesquisadores e militantes sociais que acompanham os problemas envolvendo contaminação por agrotóxicos na região. No Ceará, estima-se em pelo menos 70 mil casas de taipa instaladas na zona rural dos municípios. Esse tipo de arquitetura não seria tão problemático não fosse a fragilidade das construções de barro.
Com paredes esburacadas e sem revestimento, as armações de madeira expostas à umidade são favoráveis à instalação de mosquitos, como o transmissor da Doença de Chagas, que no ano passado acometeu 3,5 milhões de brasileiros, segundo os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A doença é silenciosa e alguns casos só foram diagnosticados em Limoeiro porque o infectado pretendia fazer doação de sangue. É a precariedade dessa moradia nas regiões que causa a relação taipa-pobreza-doença.
postado por FAGNER CRUZ
FONTE: Diário do Nordeste (Melquíades Júnior)
FOTO: Melquíades Júnior
